“Ó mar salgado,(…)”
Os últimos acontecimentos que têm varrido a sustentabilidade de Portugal constituem o epílogo de um processo que desde há alguns anos tem desmembrado total e sistematicamente os fundamentos deste país à beira mar plantado.
As perplexidades e os absurdos que este processo levanta exige que se reflicta para lá das conjecturas superficiais e formais e se mergulhe nos recônditos matriciais da natureza humana e da sua inter relação com o meio que o rodeia.
Dizia Vasco Pulido Valente, numa crónica escrita há umas semanas, que Portugal atravessa a pior crise desde o início do séc. XIX.
Eu penso, que podemos estar perante uma das piores crises de toda a História de Portugal.
Neste momento só se fala da questão económica. Como dizia José Gil, os grandes gurus do momento são os economistas e os comentadores de economia. Estão por todo o lado, ocupando os tempos de antena e as páginas dos jornais como nunca aconteceu no passado.
Mas, isto está a acontecer, porque fomo-nos enredando numa teia perversa e ignóbil lançada pelo sistema que comanda os destinos do planeta: o sistema do hiper-consumo. E connosco, todos os países do mundo estão sucessivamente a cair no amplexo fatal que esta “viúva negra” tem urdido paulatinamente desde o início da era industrial e que se tem consumado de forma vertiginosa no actual processo de globalização.
A característica fundamental do planeta Terra e dos seus habitantes (plantas e animais) é a diversidade.
O clima e a geologia têm, desde a aurora dos tempos, escrito uma história portentosa de criatividade na forma como a vida tem medrado e se tem diversificado até aos nossos dias.
De tal forma que, quando o homem apareceu, só encontrou uma explicação para tal prodígio: a existência de Deus.
Ora, o que se passa actualmente, depois de milhões de anos de “enriquecimento patrimonial” do planeta, é que apareceram uns auto-proclamados “deuses todo-poderosos” decretando o fim do processo imemorial de evolução e diversificação natural. E em seu lugar foi instituído o processo antagónico: a UNIFORMIZAÇÃO. (Para lá do processo em curso de extinção em massa das espécies.)
Podemos citar outras palavras derivadas daquela: massificação, artificialização, standardização, normalização, formatação, aculturação, domesticação, desnaturamento, clonagem, monocultura, etc.
O sistema do hiper-consumo, do alto da sua arrogância desmedida, resolveu, qual demiurgo insano, transformar a intangibilidade mágica do mundo, num previsível sistema contabilístico à ordem de um único impulso da natureza humana: a ganância!
Diga-se, aliás, impulso da mais baixa cotação dentro da hierarquia de sentimentos que povoam a mente do homem.
Depois desta espécie de introdução vamo-nos debruçar, então, sobre as circunstâncias actuais do nosso país. A problemática da economia, omnipresente como nunca, é a expressão de como o materialismo invadiu todos os interstícios da nossa sociedade e das nossas mentes. (Curioso como dantes se utilizava a denominação POVO para referenciar a população e agora se usa o humilhante termo CONSUMIDORES.)
Pode-se dizer que o que é importante actualmente é TER, sendo o SER absolutamente acessório.
Ora, quem já reflectiu minimamente sobre a natureza humana, sabe que essa escolha é uma asneira total.
Aliás, como já afirmei anteriormente, o grande embuste dos tempos actuais, foi ter-se convencido as pessoas de que a aquisição de objectos abria as portas à felicidade humana e quanto mais objectos maior a dita felicidade.
Já agora, quero referir que todos os estudos que foram feitos sobre o índice de felicidade humana (à excepção do estudo organizado pela revista da alta finança “Forbes”) colocam, invariavelmente, países pobres nos primeiros lugares. Os únicos países desenvolvidos geralmente bem colocados neste ranking são os países nórdicos. (Pese embora a sua elevadíssima taxa de suicídios!)
Mas voltemos a Portugal, resistente de 800 anos na geometria perfeita do seu imutável rectângulo, justaposto em complementaridade à infinitude atlântica!
Este pequeno povo, que resistiu aos romanos, que reconquistou a terra aos mouros e complacentemente com eles se misturou, que não deu hipóteses às veleidades do gigante espanhol durante séculos e séculos, que escorraçou as tropas do Napoleão, que em barcos “casca de noz” atravessou toda a extensão de mares tenebrosos, que controlou durante décadas o comércio em todo o Oceano Índico, que se embrenhou nos confins da Amazónia para circunscrever as fronteiras do maior país da América do Sul, que chegou em 1º lugar entre os povos europeus ao Tibete, à Etiópia e ao Japão, este povo heróico com raros pergaminhos históricos é alvo, neste momento, de humilhante e ignóbil processo de achincalhamento vindo de diversos lados, inclusive de países que são independentes há míseros anos ou outros que, aproveitando-se da nossa lealdade, recorrentemente nos apunhalam pelas costas.
Neste mundo, dominado pelo materialismo, são os países cujos genes integram essa característica de forma exacerbada que comandam a seu belo prazer.
Não é por acaso que os países aflitos sejam Portugal, Espanha, Itália, Grécia e a Irlanda (apelidados de latinos do norte).
Também é curioso relembrar que a civilização ocidental foi originada na bacia mediterrânica. E, o que hoje em dia é denominado de civilização ocidental, é uma apropriação abusiva com insidiosa adulteração por povos que no tempo dos romanos eram apelidados de bárbaros.
Onde eu fundamentalmente quero chegar, é que a única forma de manter intactos os equilíbrios de cada povo, é manter íntegras as suas particularidades.
Se os povos do norte são materialistas e utilitaristas isso tem a ver com estratégias naturais de sobrevivência. Esses povos vivem em regiões com climas temíveis. Se não se mobilizarem colectivamente, organizarem escrupulosamente e trabalharem duramente, pura e simplesmente não sobrevivem. A obtenção do conforto em ambientes ecológicos adversos exige muito esforço.
Em Portugal e no resto da bacia mediterrânica, por exemplo, a obtenção do conforto é muito mais fácil em função da aprazibilidade do clima e do ambiente.
Por isso é completamente absurdo querer transplantar o modelo social e económico nórdico e anglo-saxónico para os países mediterrânicos.
O “time is money” é, neste momento, o grande responsável pela decadência e crise dos países do sul, já que aquela frase colide frontalmente com a expressão autóctone destes países: “dolce fare niente”!
Esta expressão, que tem sido vilipendiada, e associada à preguiça e ao atraso, define de forma clara a essência da atitude mediterrânica por excelência: a contemplação.
Não por acaso a contemplação, na zona do mundo com a paisagem mais variada, com a orografia mais complexa, com o mar mais recortado, com a arquitectura mais diversificada e com o maior número de monumentos e obras de arte por km2 e, já agora, com climas dos mais aprazíveis do planeta.
A contemplação é a forma de apreensão das circunstâncias vivenciais no ritmo e formas próprias que este meio ambiente e cultura impõem. A contemplação é uma das mais importantes formas destes povos adquirirem e desenvolverem o saber.
Se um finlandês se puser à porta de sua casa a contemplar ou se se juntar com amigos numa esplanada com 10 graus negativos, que é uma temperatura comum durante 10 meses por ano, transformar-se-á rapidamente num bloco de gelo.
Contudo, não podemos nós passar uma tarde inteira, quase sem nos mexermos, olhando enfeitiçadamente o mar numa esplanada em frente à Ponta da Piedade? E quantos poemas e outros actos de criação, ou pensamentos profundos já não surgiram inspirados em momentos assim? Ou quantos negócios não foram fechados em almoços à beira-mar, ajudados pela sedução da envolvência?
Sócrates (o filósofo) construiu os complexos meandros do seu pensamento filosófico, deambulando e conversando relaxadamente com os seus discípulos na paisagem sobranceira ao Mar Egeu.
Portanto, se a actividade e o trabalho forem pautados pelo ritmo e sentidos adequados, os povos mediterrânicos com a sua criatividade, capacidade de improvisação e versatilidade alcançam patamares de excelência, como a História o pode comprovar de forma eloquente.
Com o “time is Money”, todavia, já não temos tempo para parar e captar o mundo e a sua essência ao ritmo e da maneira que sabemos e, ao contrário, levamos vida de autómatos compulsivamente a trabalhar de forma absurda e sem sentido com o fito de se obter cada vez mais objectos, cuja maioria não serve para nada, a não ser para atrapalhar e criar confusão na harmonia que deveria pautar as nossas vidas.
Charlie Chaplin ilustrou, de forma magistral, o absurdo da era industrial no filme “Os tempos modernos”, em que as pessoas repetem, oito horas por dia, 6 vezes por semana, durante 40 anos o mesmo gesto estupidificante, repetitivo e vazio.
O maestro Vitorino de Almeida, em recente entrevista, foi direito ao cerne da questão ao dizer que em Portugal não se consegue uma boa produtividade porque grande parte das pessoas não gosta daquilo que faz.
E isto acontece porque se alterou drasticamente o modo de viver neste país, destruindo o sector da produção primária em que o trabalho tem sentido em favor de trabalhos abstrusos numa máquina burocrática gigantesca de serviços.
E mais, esta modificação foi feita de forma 3º mundista e atabalhoada, sem acautelar procedimentos estruturais de organização e adaptação que poderiam aumentar muitíssimo a funcionalidade das instituições e melhorar as condições de trabalho e a motivação das pessoas.
Nos países nórdicos e anglo-saxónicos a organização, a cooperação e a eficiência é tal, que a mitigação dos aspectos negativos inerentes a uma sociedade industrial acaba por ser relevante.
Nós tentamos imitar o seu modo de vida, o que está mal, mas ainda por cima imitamos mal, o que é duplamente mau!
E assim, depois de 4 décadas de deriva “desenvolvimentista”, cujo único resultado foi o desmantelamento da nossa essência cultural, os resultados estão à vista:
Destruição da nossa agricultura e das nossas pescas, principais actividades dos portugueses durante séculos; destruição de inúmeras indústrias tradicionais, tais como as conservas, o vidro, a cerâmica, os produtos agrícolas processados, o artesanato, a construção naval, etc; destruição da maior parte da nossa paisagem, quer no campo, quer no litoral, assim como a poluição de quase todos os rios e contaminação dos solos; destruição quase por completo do nosso património arquitectónico, nomeadamente a arquitectura popular, referenciada como das mais ricas em todo o mundo.
O nosso território foi, por sua vez, soterrado por uma das mais abjectas e caóticas selvas de betão e de alcatrão que já alguma vez se implantou em qualquer país. E nos espaços que sobraram plantou-se outro tipo de selva: eucaliptos e pinheiros, para rebentar de vez com os solos e as reservas de água.
E, finalmente, o descalabro total da economia, ficando o país refém da especulação dos abutres da finança mundial.
Está na hora de reabilitar a essência perdida do nosso território que, tal como em toda a bacia mediterrânica, se situa na terra.
Pela sobrevivência da cultura mediterrânica bateram-se muitas personalidades, das quais quero destacar Gonçalo Ribeiro Telles e Orlando Ribeiro, ostracizados e ridicularizados pela sociedade “desenvolvimentista” que tem delapidado o país e a sua cultura.
Numa sociedade artificializada e domesticada confunde-se tudo e relacionou-se a vida simples e austera do campo com miséria, pobreza e fome.
A vida no seio da natureza é sempre dura, mas está impregnada de autenticidade e de sentidos profundos. (Mas é, realmente, nas cidades que há fome, mendicidade, insegurança, solidão, egoísmo, stress e velhos a morrer abandonados, e não no mundo rural tradicional, hoje liquidado.)
Lastimavelmente o mal está feito e o legado dos nossos antepassados corre o perigo de se perder para sempre.
Perdeu-se, assim, uma oportunidade histórica de adequar processos tecnológicos modernos e sustentados para o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos conhecimentos dos nossos camponeses que, nos dias que correm, com a procura cada vez maior de produtos biológicos e gourmet, poderia constituir uma via de desenvolvimento económico do país, mantendo as pessoas no campo e no seu contexto cultural. (Na Eslovénia fez-se, em parte, isso.)
Também o turismo ambiental e cultural de alta qualidade (o único com sustentabilidade futura) em larga escala, ficou hipotecado para os próximos tempos.
No contexto dos tremendos desafios que este século nos vai colocar e em contra corrente com as previsões dos profetas das megalópolis, penso que o retorno à terra é inevitável, o que são boas notícias para a Humanidade e a Natureza.
E, para terminar, voltemos à essência do carácter luso nas palavras de Jorge Dias e que corrobora aquilo que apontei:
“No momento em que o Português é chamado a desempenhar qualquer papel importante, põe em jogo todas as suas qualidades de acção, abnegação, sacrifício e coragem e cumpre como poucos. Mas se o chamam a desempenhar um papel medíocre, que não satisfaz a sua imaginação, esmorece e só caminha na medida em que a conservação da existência o impele. Não sabe viver sem sonho nem glória”.
Fernando Silva Grade
